Intervenção na ruína:
Mirante da Igreja de São José da Boa Morte
No projeto a construção preexistente foi essencialmente mantida como encontrada,valorizando seu caráter enquanto ruína, preservando-se as marcas, bem como os vestígios das ocupações e intervenções anteriores. Todas as intervenções de novo uso foram concebidas para serem justapostas à estrutura original, mantendo-se claramente distinguíveis e reversíveis. Uma das principais propostas aqui apresentadas é a criação de um Mirante: um novo nível dentro da ruína, em estrutura metálica, sustentado por quatro pilares com sapatas isoladas e acessível por uma escada independente.
Este mezanino, concebido como uma estrutura autoportante que não toca as paredes existentes, tem a função de reinterpretar o antigo coro da capela, oferecendo aos visitantes uma nova perspectiva sobre o espaço. A proposta foi revista em relação ao anteprojeto anterior, apresentando agora dimensões mais adequadas à estrutura remanescente. A escada de acesso ao mirante foi reposicionada para a lateral da igreja, preservando o espaço livre da nave central como área de contemplação. Seu acabamento, assim como o do guarda-corpo, será em aço corten com cabos de aço — material escolhido tanto por sua resistência quanto pela qualidade estética que harmoniza com a materialidade da ruína.
Intervenções semelhantes podem ser encontradas internacionalmente como no Museu do Mosteiro de Santa Clara-a-Velha, em Coimbra, Portugal. No Brasil, há projetos similares como o Castelo Garcia d’Ávila em Mata de São João, na Bahia, e o Parque das Ruínas em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. A proposta busca inspiração nos exemplos citados de integração entre preservação histórica e inserções contemporâneas.
Todas as novas adições serão construídas em aço corten, material escolhido por sua durabilidade e por sua capacidade de harmonizar-se visualmente com a arquitetura histórica existente, sem comprometer a autenticidade do local.
Altar
Para o local onde se situava o antigo altar, foi proposta uma plataforma metálica em aço corten. A plataforma se sobrepõe ao aterro preexistente, preservando os vestígios arqueológicos da construção e, ao mesmo tempo, tornando o espaço do antigo “altar” visível e utilizável.
Com base em um estudo mais aprofundado do espaço, foram identificados vestígios do antigo piso do altar da Igreja, situado ao fundo da nave principal. Essa área atualmente se caracteriza por uma porção de terra e pedra de nível superior ao restante da nave da Igreja, como um grande patamar.

O projeto propõe a recuperação da leitura do antigo patamar do altar por meio da utilização de materiais contemporâneos, criando um novo nível acessível aos visitantes, que também poderá ser utilizado como palco para futuras apresentações. A intervenção tem como objetivo recriar o plano original do altar a partir do nivelamento da estrutura remanescente, que será revestida com aço corten — material presente em outras partes do projeto, assegurando coesão e unidade estética ao conjunto.
Está prevista a instalação de sinalização adequada, que informará aos visitantes a localização do antigo altar, estabelecendo uma referência clara entre a estrutura original e a intervenção contemporânea.
Contraforte da lateral da Igreja de São José da Boa Morte
A partir da análise das estruturas remanescentes da Ruína, foi identificada uma espécie de “contraforte” situado na lateral da Igreja, responsável pela ancoragem da alvenaria da fachada lateral do conjunto. Tendo em vista que a estrutura encontra-se com partes faltantes e envolta por raízes, o projeto propõe a limpeza do elemento, assim como a manutenção da volumetria existente.
A modulação proposta para o contraforte deverá ser em pedras, encontradas nos escombros da ruína, seguindo as medidas indicadas em projeto anexo a este documento, que tem o intuito de redesenhar a volumetria existente sem interferir na sua função.
Conceito Projetual para Centro Comunitário
O projeto contempla a consolidação das ruínas da Igreja de São José da Boa Morte e a construção de um edifício de pavimento único, respeitando a topografia e a vegetação natural do terreno.
A proposta do centro comunitário é oferecer um ambiente destinado a exposições, oficinas de artesanato e celebrações comunitárias, valorizando a memória histórica, a cultura local e a relação entre a população e o meio ambiente. Além disso, o empreendimento contribuirá para a ativação da região, promovendo segurança, turismo e geração de empregos, sem comprometer a integridade do patrimônio existente. A localização da nova construção foi planejada para não interferir na leitura da igreja, garantindo a preservação do seu entorno imediato.
A elaboração e execução deste projeto seguem normas e regulamentos específicos, incluindo o Código de Obras e Edificações do Município, bem como diretrizes técnicas estabelecidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Dentre essas normas, destacam-se a NBR 9050, que trata da acessibilidade em edificações e espaços urbanos, a NBR 15575, que define critérios de desempenho para edificações, e a NBR 6492, que rege a representação gráfica de projetos arquitetônicos. Além disso, o projeto atende às exigências do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac-RJ), considerando o tombamento da Igreja de São José da Boa Morte por meio do Processo E-03/300.128/89.
Também foram incorporadas diretrizes de sustentabilidade e eficiência energética, priorizando o uso de materiais sustentáveis e estratégias bioclimáticas que minimizem o impacto ambiental da construção. Este documento, portanto, serve como referência técnica para garantir a qualidade, segurança e preservação do patrimônio histórico e ambiental no desenvolvimento do Centro Comunitário Cachoeiras de Macacu.
A consolidação das Ruínas de São José da Boa Morte, localizada no distrito de Cachoeiras de Macacu (RJ), é um marco na preservação do patrimônio histórico carioca. A iniciativa busca proteger e valorizar este importante remanescente da arquitetura religiosa do século XVIII, promovendo sua salvaguarda como bem cultural e potencial catalisador do desenvolvimento social e econômico da região.
O projeto é viabilizado por meio da Lei de Incentivo à Cultura do Governo Federal, com patrocínio da Nova Transportadora do Sudeste (NTS) e apoio da Prefeitura de Cachoeiras de Macacu, além da participação ativa de moradores locais. A Elysium Sociedade Cultural, entidade proponente com mais de 35 anos de atuação no Brasil, coordena a execução da obra com uma equipe especializada em arquitetura e restauro.
As ruínas pertencem à antiga Igreja de São José da Boa Morte, tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) em 1989. O edifício foi construído com uma técnica tradicional do período colonial, que combina pedras e tijolos assentados, conhecida como junta seca embrechada.
Hoje é possível reconhecer vários elementos originais da antiga igreja, como a nave central preservada, restos da torre lateral, fachada com um grande portal em arco, janelas altas com acabamento arredondado e a capela-mor, uma área mais estreita no fundo da igreja,
O princípio fundamental do projeto é preservar a autenticidade da construção, respeitando tanto sua integridade material quanto seu valor simbólico. Isso inclui manter as marcas do tempo, as intervenções acumuladas ao longo dos anos e a ambiência natural que compõe a paisagem do entorno.
Preservar é um gesto de cuidado com o que nos antecedeu e que ainda pode nos ensinar. Com especial atenção à sustentabilidade e ao mínimo impacto no sítio arqueológico, toda intervenção é conduzida em conformidade com os órgãos de preservação e acompanha práticas como a reutilização de materiais e o correto manejo de resíduos.
A consolidação das ruínas integra um plano mais amplo, que prevê a criação de um parque cultural e ecológico no entorno do sítio. Essa iniciativa amplia os significados do patrimônio histórico, promovendo a integração entre memória, turismo, natureza e comunidade.
